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Zita é guerreira por natureza

Sexta-feira, 01 de Agosto de 2014

Domingo, 20h. As trapalhadas da vida real que foram filmadas no passado começam a fazer graça na televisão digital. O sol já se pôs e o restante do almoço está esquentando na panela. É o momento de reunir a família, novamente, e usufruir das últimas horas de folga antes de mais uma semana de trabalho. Mas a campainha toca. Tin dón, tin dón. "Já vou!", grita Zita da cozinha. Tin dón, tin dón. Insiste o chamado. Do outro lado do portão verde grama, na calçada da quinta ou sexta casa da primeira rua do bairro, uma amiga aguarda a dona de casa. "Zita, sou eu. Abra!", fala alto.

Zita acelera e abre. É quando vê uma vizinha querida. Descobre então que ela precisa de ajuda. "Uma amiga precisa de você. Não tem coragem de vir, tem vergonha de admitir. Está sendo enganada pelo marido, violento, agressivo. Maltrata ela e as crianças. Mas não é só isso. Não tem pago o apartamento do Conjunto Habitacional. O governo já enviou a carta de despejo. Ela não sabia e agora não tem para onde ir. Se ele souber que ela descobriu as trapaças e pediu ajuda, mata ela e os filhos", relata a moradora em tom grave, evidenciado o medo de repassar o recado.

Com cerca de um metro e meio de altura, Zita se faz grande. Abre o sorriso acolhedor e dispara. "Fica calma. Nervosismo só atrapalha o raciocínio. Diga à sua amiga para vir aqui amanhã cedo, assim que o marido sair de casa para trabalhar. Estarei esperando. Mantenham segredo", avisa com voz firme. A moça não retruca, aceita. E vai embora correndo, molhando os chinelos nas poças de chuva do asfalto irregular. Então a dona de casa fecha o acesso. Mais tarde, depois de ver os filhos e o marido se recolher, Zita deita-se e pensa no drama da mãe de família que socorrerá no dia seguinte.

Mais uma das dezenas de mulheres que são vítimas de algum tipo de violência a cada 15 segundos no mundo, como pontua a Organização das Nações Unidas (ONU). "O ciclo não para", diz a si mesma ao refletir sobre o que lhe espera, dia após dia, quando a campainha toca. Porém, como tantas vezes, no momento seguinte, conforta-se ao pensar que poderá ajudar, como fez com outras pessoas nos últimos 11 anos. Resiliente, dorme, à espera do sol que também iluminará sua mente. Ela não tem carteira assinada. Menos ainda salário. E engana-se quem pensa que Zita ganha alguma coisa ajudando o próximo.

Trabalha, quase, involuntariamente. É mais forte que ela mesma. Zita é uma líder comunitária por natureza. Uma dona de casa de 39 anos, casada e mãe de quatro filhos. Uma mulher que, por obra do destino, aprendeu cedo que para sobreviver é preciso lutar. Mineira nascida em Almenara, no nordeste do Estado, deixou a família aos 15 anos para acompanhar uma tia em tratamento médico em São Paulo. Acostumou-se com a independência, proporcionada por um emprego fixo de doméstica, não quis voltar.

Aos 20 anos, mudou-se para Sorocaba. Durante este período, casou-se com Hélio Santos e teve o primeiro filho, Kauã - hoje com 20 anos. Voltou à Minas para visitar a família apenas 8 anos depois da partida, já viúva e com o filho de dois anos. "Hélio tinha chagas, quando soube, o coração estava enorme", lamenta. Anos depois, permitiu-se amar novamente. Conheceu Aparecido de Jesus Lima e com ele formou a família que sonhava. Casou-se e teve mais filhos: Engel, que tem 17 anos, Érick de 15, e Larissa de 13.

"Sempre lutamos. Pagar as contas no final do mês e dar de comer a quatro crianças não foi fácil", recorda. Tanto que ela lembra quando levantou sozinha uma casa no então recém-formado bairro Ana Paula Eleutério, o conhecido Habiteto, onde ainda reside. "No começo eram barracos. Depois fizemos de alvenaria", detalha. Neste período, separou e reatou com o marido. "Fiquei magoada. Aliás, esse é meu defeito, sou sensível demais, guardo as coisas. Mas tenho aprendido a perdoar", afirma.

E foi justamente esse amadurecimento que levou os dois a buscarem soluções para os problemas sociais locais. Cido, como é conhecido, transformou-se em militante do Partido dos Trabalhadores. Ela, a famosa dona de casa que ajuda todo mundo. "Adoro política, mas não me envolvo", avisa. Mas foi por conta das atividades do esposo que ela foi convidada a participar do primeiro curso de Promotoras Legais Populares (PLP) de Sorocaba, realizado em 2003.

Idealizado pelas ex-parlamentares Tânia Baccelli e Iara Bernardi, o curso, desenvolvido exclusivamente para mulheres, nasceu com o objetivo de ajudá-las a trabalhar em seguimentos populares, com justiça no combate a todo tipo de discriminação. Ela lembra-se que a iniciativa, que já formou mais de 600 mulheres em Sorocaba e região, ensinou-a a reconhecer-se mulher. "Eu estudei até o quarto ano. Lembro-me de avisá-los disso. Mas não precisava de diplomas, só força de vontade e o sonho de melhorar a vida", garante.

Tanto que, depois de fazê-lo, passou a dizer: "Meu nome é Elzita Rodrigues Moreira. Não nasci mulher, me tornei uma". Isso porque foi lá, no curso que há 9 anos é desenvolvido pelo Instituto Plena Cidadania (Plenu), que ela descobriu os direitos humanos e os das crianças; aprendeu sobre a Constituição Federal; soube o que é violência doméstica, políticas públicas, assistência jurídica; além da importância de se cuidar com exames de prevenção de doenças, empoderamento e empreendedorismo feminino. Ela anotou os índices de benefícios da educação, o funcionamento do terceiro setor e da rede de proteção à mulher.

"Mas não foi só isso. Descobri que para lutar, eu posso ser eu mesma. Fiz amizades, perdi o medo de falar, de argumentar e lutar", emociona-se. As lágrimas nos olhos conflitam com o sorriso largo que ela tem. É que, de uma forma ou outra, o Deus cristão que ela crê, lhe foi generoso, diz. O marido trabalha, é um bom pai. "Nunca fez diferença entre Kauã e os outros três", frisa. Os filhos, estão bem encaminhados, todos estudam, nenhum se envolveu com drogas ou álcool.

É por isso que pode se preparar, diariamente, para auxiliar moradoras do bairro que lhe têm como referência. "Não passo uma semana sem algum conflito para resolver. Tiro passe do meu bolso para essas mulheres que tanto precisam recorrer a algum direito. Infelizmente a Justiça ainda não chegou a todos, é burocrática. A mulher ainda é submissa, agora provedora, acumula funções. Muitas são confusas emocionalmente, não sabem se defender se quer da tortura psicológica", lamenta. Sua percepção é endossada por Tânia Baccelli, presidente do Plenu.

"Lutamos contra a história, a cultura enraizada desde a Idade da Pedra, quando só os fortes sobreviviam. Sabemos que para mudar isso o caminho é longo. A ferramenta é a igualdade, alcançada pelo conhecimento", define. É nisso que Zita se apoia ao abrir a porta para a mulher que pede socorro na segunda-feira, logo às 8h. "Vamos renegociar as dívidas do apartamento e ir até a Defensoria Pública ver a possibilidade de transferir o imóvel para seu nome. Quando isso acontecer, procuraremos um lugar para você e seus filhos, para que fiquem protegidos até que a Justiça lhes alcance", informa à vítima.

As recompensas? Ela lista: "O sorriso das crianças, a certeza de que terão um futuro diferente. A possibilidade de restauração emocional das mães, um agressor preso e um lar para viver". E em quanto ela trabalha, todo ano o Instituto Plenu (www.plenu.org.br) forma 50 guerreiras. (Anônimos Sociedade Pública é uma série mensal de matérias que tem como objetivo contar histórias de pessoas anônimas da sociedade civil. As publicações ocorrem sempre na última sexta-feira do mês. Sugestões de personagens envie para o e-mail: leila.gapy@jcruzeiro.com.br).



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